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Donald Trump, um leitor de Monteiro Lobato. Será?

Estamos vivendo um verdadeiro Orange is the New Black, Donald Trump como você já deve saber é um cara ridiculamente conservador  e no mínimo polêmico. Ele ganhou as últimas eleições americanas com uma plataforma bizarra e ao mesmo tempo assustadora. Até aí, “ok”. Mas o que Monteiro Lobato, que foi escritor de literatura infantil, tem a ver com isso?

A maior parte dos brasileiros só conhece a obra de Monteiro Lobato por conta do Sítio do Pica-Pau-Amarelo transmitido pela TV Globo. Mas o criador da famosa Emília foi também uma figura extremamente racista e patrocinador das teorias eugenistas, que defendiam a melhoria genética dos brasileiros por meio do branqueamento da população. Não raro, esse seu pensamento era perpassado para sua obra em trechos cuja vítima principal era a personagem Tia Anastácia (apresentada como uma  mulher negra e escrava).

Quando vivo, Monteiro Lobato disse ao jornalista Silveira Peixoto em uma entrevista, que a personagem de seus livros foi inspirada em uma mulher chamada Anastácia, que trabalhava em sua casa como cozinheira e babá de seus filhos. A “Anastácia real” é descrita como uma negra alta, magra, de canelas e punhos finos, um personagem com características mais próximas da realidade das trabalhadoras negras mas que não deixava de ser um retrato lamentável de sua condição na sociedade.

A bondade extrema de tia Anastácia dava-lhe, no contexto do Sítio do Picapau Amarelo a função de escrava, o verdadeiro ar de brasilidade, junto a uma Dona Benta de formação cultural européia. Enquanto esta falava de Hans Staden, e apresentava aos netos a Mitologia Grega, foi pela boca de tia Anastácia que dezenas de histórias do folclore brasileiro foram sendo narradas, com deleite, às crianças do sítio. Por seus lábios, personagens menosprezados do rico fabulário popular encontraram meios de chegar aos leitores mirins do Brasil, e tia Anastácia tornou-se o centro das atenções, em “Histórias de tia Nastácia” – um dos livros da série. Tia Anastácia é a personagem que representa a sabedoria popular, a sabedoria do povo.

Lobato escreveu um único romance para adultos, chamado O Presidente Negro, publicado originalmente em 1926. Em uma moldura pautada na ficção científica, ele conseguiu desenvolver suas ideologias eugenistas numa história que projetava os Estados Unidos do ano 2228. Havia um máquina chamada porviroscópio, e por meio dela um cientista maluco, sua filha e o narrador da história tinha o poder de ver o futuro, e usavam dessa tecnologia para assistir o momento da história americana em que uma tensão entre raças e gêneros se refletia nas eleições para presidência.

Nessa projeção, republicanos e democratas se uniram no Partido Masculino, enquanto as mulheres vão para a oposição no Partido Feminino. Na obra, as mulheres não são apenas outro gênero da raça humana, mas outra espécie inteiramente diferente, o que explica as diferenças de comportamento em comparação com os homens. Os negros, por outro lado, respondem por  1/3 da população americana, mas não têm organização política própria. A cada eleição, o líder dos negros decide se eles devem votar no Partido Masculino ou no Partido Feminino, de acordo com as conveniências políticas do momento. Em 2228, esse líder surpreende a todos lançando candidatura própria, e com reais possibilidades de ganhar.

Coincidência ou não, em 2008 Obama disputava com Hilary Clinton a indicação democrata às eleições. O candidato republicano de então era o branquíssimo John McCain, com sua vice igualmente alva, Sarah Palin. Com a vitória de Donald Trump e seu discurso numa campanha contra uma candidata mulher que tinha Obama como fiador, foi impossível não lembrar do romance. Especialmente porque, desta vez, a realidade fez jus ao futuro imaginado por Monteiro Lobato – “um dia a humanidade se assombrará diante das previsões dos escritos”, diz o livro.

A trama de O Presidente Negro foi tecida por Lobato para lhe permitir discutir as diferenças nas soluções brasileira e americana para o problema dos negros. Assim, o romance condena nossa miscigenação por sua lentidão no processo de embranquecimento da população brasileira, enquanto elogia a total segregação realizada pelos americanos. Naquele ano de 2228, os Estados Unidos haviam conseguido implantar processos tecnológicos que despigmentavam a pele dos negros para que parecessem mais claros, mas isso não resolvia as diferenças socioculturais, o que, para o autor, reduzia os valores humanos da nação. A ascensão do candidato negro, portanto, é vista na obra como a máxima ameaça às conquistas americanas.

Trump, foi eleito apesar (ou por causa) de suas atitudes misóginas e de sua postura abertamente racista e xenófoba. Seus discursos machistas, que tentam restringir mulheres a um espaço decorativo e utilitário, assim como a defesa da xenofobia como política de Estado, não são muito diferentes, a princípio, das soluções mirabolantes pensadas por Monteiro Lobato para resolver sua trama futurista.

Lobato, no entanto, não era um homem de seu tempo, como alguns tentam defender. Ele propagava estas ideias poucas décadas após a abolição da escravatura, defendida por seus pares intelectuais; na mesma época em que Gilberto Freyre festejava a miscigenação brasileira e o Movimento Modernista alçava o mulato a símbolo nacional. Ainda que estabanadamente, o Brasil trabalhava para tentar integrar o negro à identidade nacional, mas Lobato nadava contra a maré.

Este não parece ser o caso de Donald Trump. Reverberando uma era de extremo retrocesso de pensamento, ele sobe junto com a onda conservadora, alçando a um dos postos mais importantes do mundo com um pensamento do passado, que se projeta para o futuro próximo – infelizmente – com todas as forças.

Racismo é crime. Denuncie.

Existem muitas formas denunciar. É possível prestar queixa nas delegacias comuns e especializadas em crimes raciais, presentes em algumas capitais – em São Paulo, por exemplo, há a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. Algumas unidades da federação também contam com disque-denúncias específicos para o crime de racismo, como o disque 124, no Distrito Federal ou o disque 100 – Direitos Humanos.

Sobre Maressa Urbano

Publicitária, acadêmica de Letras e coordenadora de mídia e conteúdo.

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